Além da logística, a alta do petróleo elevou em mais de 10% o preço das fibras sintéticas, como poliéster e acrílico, comprimindo ainda mais as margens das cadeias de vestuário . Fornecedores relatam ajustar preços uma ou duas vezes por dia, sufocando fabricantes que já lidavam com tarifas e uma economia chinesa em desaceleração .
As mesmas pressões econômicas que inflacionaram os custos logísticos estão corroendo a demanda. Consumidores de baixa renda no Ocidente, a base de clientes dessas plataformas, estão reduzindo gastos à medida que a inflação ligada à guerra corrói o poder de compra . O modelo de negócio baseado em itens baratos de compra impulsiva só funciona em alto volume, e esse volume está diminuindo justamente quando os custos estão subindo.
A ameaça mais estrutural, no entanto, vem de Bruxelas. A partir de 1º de julho de 2026, a União Europeia vai impor uma taxa alfandegária fixa de €3 para cada encomenda de baixo valor que entrar no bloco, eliminando a isenção de minimis que existia para produtos abaixo de €150 . A medida foi desenhada para atingir os bilhões de pequenos pacotes enviados diretamente ao consumidor por plataformas como Shein e Temu, que, segundo a UE, custam aos Estados-membros cerca de €1 bilhão por ano em receitas alfandegárias perdidas .
E uma segunda camada de custos está a caminho. Uma taxa de manuseio adicional, cujo valor final ainda está em negociação, deve entrar em vigor a partir de novembro de 2026 .
Talvez mais importante que as taxas em si seja uma mudança fundamental na responsabilidade legal. Pela reforma alfandegária provisória acordada na UE, as plataformas online que enviam produtos diretamente aos consumidores europeus passarão a ser tratadas como importadoras. Isso as torna legalmente responsáveis pelo pagamento de taxas, conformidade com o IVA e segurança dos produtos . Empresas que violarem as regras repetidamente poderão ser multadas em 1% a 6% do total de suas vendas na UE nos últimos 12 meses . Uma nova Autoridade Aduaneira da UE, com sede em Lille, na França, está prevista para começar a processar remessas de e-commerce em 2028 .
A resposta da Shein a esse cerco tríplice é mover suas operações para mais perto dos clientes europeus. A empresa inaugurou um centro logístico de 740 mil m² perto de Wrocław, na Polônia, desenvolvido pela GLP, uma gigante global do setor imobiliário logístico . A instalação servirá como o principal polo operacional da Shein na Europa e deve elevar o número total de empregos gerados pela companhia no país para pelo menos 5 mil postos de trabalho .
Internamente, o centro conta com sistemas robóticos de separação (picking) e linhas de triagem automatizadas, projetados para operações de e-commerce de alto volume . A lógica estratégica é clara: ao armazenar estoque na Polônia e distribuir via transporte terrestre pelo continente, a Shein reduz sua exposição ao volátil preço do combustível de aviação e sua dependência do frete aéreo direto da China.
Essa mudança também atende a uma finalidade regulatória. Enviar mercadorias a granel para um armazém europeu — onde o desembaraço aduaneiro ocorre em nível de contêiner — é uma operação fundamentalmente diferente de despachar pacotes individuais da China para um sistema onde cada um deles agora carrega uma taxa de €3, e onde a própria plataforma é a responsável pelas obrigações de importação.
Outras plataformas chinesas estão de olho. A Temu também está expandindo suas parcerias de entrega na Europa, um sinal de que a era do e-commerce puramente aéreo a partir da China pode estar chegando ao fim para todo o setor .
A escolha da Polônia como base logística reflete uma tendência mais ampla na infraestrutura de e-commerce europeia. A posição geográfica central do país permite uma distribuição eficiente por estrada e ferrovia tanto para os mercados da Europa Ocidental quanto Oriental. A Polônia se tornou um destino preferencial para investimentos logísticos de empresas que buscam navegar pelas pressões pós-pandemia nas cadeias de suprimentos e os novos encargos regulatórios . Com o aperto das regras alfandegárias da UE e o frete aéreo ainda caro, é provável que mais plataformas sigam o exemplo da Shein, rumo à armazenagem regional e à distribuição terrestre.