No fim dos anos 1990, as ofertas de ações inundaram o mercado com valuations astronômicos e lucro zero. Hoje, os três gigantes da IA — SpaceX, OpenAI e Anthropic — somam mais de US$ 3 trilhões em valuation combinado com rentabilidade agregada próxima de zero . A SpaceX sozinha registrou um prejuízo líquido de US$ 4,28 bilhões no primeiro trimestre de 2026 e carrega um déficit acumulado de US$ 41,3 bilhões . A OpenAI deve perder cerca de US$ 14 bilhões neste ano, com a expectativa de lucro só depois de 2030 . A Anthropic, que fez seu pedido de IPO de forma confidencial, também opera no vermelho .
A distância entre valuation e fundamentos é gritante. Com uma meta de US$ 1,75 trilhão, a SpaceX seria negociada a cerca de 110 vezes a receita anual de 2025 . A conta inteira depende de projeções futuras — exatamente a lógica do "novo paradigma" que alimentou a bolha das pontocom.
A TS Lombard aponta dados históricos da SEC (CVM americana) mostrando que picos no volume de IPOs coincidiram repetidamente com topos de mercado relevantes . A firma observa que o crash das pontocom e o mercado baixista de 2022 foram antecedidos por aglomeração de IPOs em máximas.
A fila de 2026 não é grande — ela é historicamente sem precedentes. A captação combinada de SpaceX, OpenAI e Anthropic deve se aproximar de US$ 200 bilhões . A SpaceX sozinha busca levantar até US$ 75 bilhões, mais que o dobro do recorde da Saudi Aramco em 2019 . Em um único trimestre, os mercados públicos podem ter de absorver quase meio trilhão de dólares em novas ações .
Quando insiders de empresas correm para vender ações perto das máximas históricas do mercado, argumenta a TS Lombard, o padrão raramente terminou bem para os investidores que chegam depois.
Assim como um punhado de ações de tecnologia dominava a Nasdaq do fim dos anos 1990, um grupo enxuto de ações de IA impulsionou impressionantes 79% dos ganhos do S&P 500 desde o fim de 2022 . Em 2025, 61% de todo o capital de risco global foi parar em empresas de IA — espelhando a concentração de capital da era pontocom quase que exclusivamente em startups de internet.
Esse nível de concentração cria uma fragilidade estrutural. Quando o setor líder tropeça, historicamente o mercado mais amplo tem pouco para amortecer a queda. Com as ações de IA atingindo um peso recorde no S&P 500, o risco de correções em cascata é elevado .
Um dos riscos mais subestimados na fila de 2026 é a onda de vencimentos de lock-ups (períodos de restrição para venda de ações) de insiders. Depois que esses IPOs acontecerem, os primeiros investidores e funcionários enfrentarão um período de lock-up padrão (geralmente de 90 a 180 dias) antes de poderem vender. Quando essas janelas se abrirem, a avalanche de ações pode ser enorme.
Analistas projetam que os vencimentos de lock-ups na onda de IPOs de IA podem liberar cerca de US$ 500 bilhões em oferta de ações no mercado . A TS Lombard observa que isso é um paralelo direto com o fim dos anos 1990, quando uma enxurrada de vendas de insiders após o fim dos lock-ups marcou o topo da bolha das pontocom . O risco estrutural é idêntico: liberação massiva de ações combinada com fundamentos em deterioração e valuations no pico.
Talvez o paralelo mais subjetivo — mas mais reconhecível — seja o retorno do valuation movido a narrativa. O prospecto da SpaceX, por exemplo, inclui linhas de receita futura como mineração de asteroides, produção de energia lunar e transporte de passageiros para Marte . Enquanto isso, o resultado financeiro atual da empresa é profundamente negativo, impulsionado em grande parte pelos custos de sua fusão com a xAI em fevereiro de 2026 .
No valuation almejado, a SpaceX seria maior que a Microsoft, atrás apenas da Apple e da Nvidia em valor de mercado — apesar de ter registrado um prejuízo líquido no primeiro trimestre de 2026 que quase igualou a perda de todo o ano de 2025 . OpenAI e Anthropic também dependem de projeções de receita futura que assumem um crescimento explosivo sustentado em um contexto de mercado aberto ainda não comprovado .
Essa confiança na história em vez de resultados é um espelho da lógica pontocom de que "os lucros não importam em um novo paradigma".
Vale notar que a análise da TS Lombard, embora convincente, é uma perspectiva. Os otimistas da IA apontam para o crescimento genuíno de receita — a SpaceX cresceu cerca de 65% na receita anualizada no primeiro trimestre de 2026 — e a demanda profunda por infraestrutura que pode justificar os valuations atuais no longo prazo . A história rima, mas raramente se repete perfeitamente.
A diferença chave da era pontocom é a escala: esta é a maior onda de IPOs já tentada. Se os mercados públicos conseguem absorver mais de US$ 3 trilhões em listagens de IA sem uma correção continua sendo a pergunta que define o ano de 2026.